segunda-feira, 1 de março de 2010

O adeus a elegância do samba, protegido esteja Walter Alfaiate

Ontem faleceu Walter Alfaite mais um dos baluartes que agora irão contemprar e dispôr sambas e elegância em outros ares, valeu demais poeta. Mais do sambista? Clique aqui
Papo de botequim com Walter Alfaiate - por Mauro Ventura
Estive com o grande Walter Alfaiate às vésperas do carnaval do ano passado. Encontrei com o sambista da Velha Guarda da Portela em sua alfaiataria, em Copacabana, e de lá fomos para um boteco ao lado, que costumava frequentar. A seguir, alguns trechos da conversa, permeada de bom humor:
- Sobre confundirem-no com Nelson Sargento: "Não sei por que acham, não pareço nada. Assim como me chamam de Walter Sargento devem chamá-lo de Nelson Alfaiate. Ele que não fique zangado, mas sou mais bonitinho."
- Sobre o fato de ter começado tarde na profissão: "Não me arrependo de não ter ido para o rádio, quando me convidaram, aos 23 anos. Sei lá se explodisse naquele ano o que seria de mim hoje. Se tivesse começado na época pode ser que quando tivesse lançado meu primeiro disco, aos 68 anos, em 1998, dissessem: 'Já tá velho.' Hoje em dia me acham até broto. Como apareci com 68 anos, dizem: 'Pô, legal.' Por isso que digo que me trato com pediatra."

- Sobre relacionamento: "Minha etapa de casamento já passou. Agora eu tô ficando. Elas querem casar comigo, mas não tô a fim disso mais não. Casei uma vez, mas fui amigado quatro vezes. Minha vida amorosa é um desacerto danado, mas me dou com todas elas. É meio difícil sambista sem vida amorosa complicada. É o melhor tema para se fazer samba. Contando bem dá sete filhos, mas só vejo quatro. De repentemente tem mais filhos por aí."





- Sobre a profissão de alfaiate:
"Ninguém mais aprende o ofício. Está em extinção. Os da antiga estão morrendo. O chinês chegou aqui para bagunçar a gente, com roupa barata que não vale nada. E hoje em dia em qualquer casamento e formatura o sujeito vai de calça jeans. Ninguém mais usa paletó. Estão fraquíssimas as encomendas. Não está rendendo nada, os fregueses sumiram todos. Não entra um cara nem para fazer bainha. Essa coisa de Fashion Rio não é minha praia. Vejo cada roupa ali que vou te contar. Não vejo ninguém andar com aqueles vestidos na rua. Aquelas roupas esquisitas. As modelos estão sumindo, são muito magrelas. Nesse país as meninas já nascem querendo ser modelo e os garotos já nascem com um tamborim na mão ou uma bola no pé, estão esquecendo a escola. Sou alfaiate, não sou estilista nem costureiro. Fica mais sonoro chamar com nome em inglês (personal stylist), mas não sei o que é. Não quero esse negócio de coisa em inglês e francês, negativo. Na minha época tinha três ou quatro garotos aprendendo também, e os alfaiates eram tudo espada."
- Sobre a paixão pelo samba: "O samba me faz bem. Quer me ver satisfeito é numa roda de samba com cavaquinho e violão. Samba tem tudo isso: S de saúde, A de amor, M de mulher, B de bondade e A de amizade."
- Sobre roupas: "Antes, no carnaval, o cara saía fantasiado de mulher, e a mulher, de homem. Hoje não precisa, já andam fantasiados o ano todo."
- Sobre a fama de malandro: "Me acho malandro. Confundem malandro com pilantra, vigarista, vagabundo. Mas malandro trabalha, anda de cabeça em pé, gosta de brincar, namorar, sambar. Nunca briguei, bati ou apanhei. Malandro chega bem chegado, todo mundo aplaude. Nunca gastei gastei gasolina de camburão nem folha de estado para bater processo, ou seja, nunca fui preso."
- Sobre a saúde: "Em 2006 tive um problema no coração. Em 2008, foi uma pneumonia. E tive um edema, estava cantando na Petrobras e passei 14 dias internado. Sou hipertenso, sou obrigado a tomar remédio e vou uma vez ao mês ao médico. O coração é traiçoeiro. Ele já é traiçoeiro de nascença, mais tarde ele se apaixona e depois fica chorando a traição das mulheres. E o meu parece que gosta de sofrer. Não estou bebendo, para não ter recaída, bebida você começa e daqui a pouco está enchendo a cara de cerveja. Não sinto falta nenhuma de beber, canto careta tranquilo."
- Sobre a idade: "Eu curti a vida, namorei para caramba. São 78 anos bem vividos. Quero durar mais uns 15."
Infelizmente não deu. Walter Alfaiate despediu-se mais cedo do que previa, ontem, aos 79 anos, sem nunca abrir mão da elegância no corte das roupas, nos palcos e na vida.
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A música pulsa como um Eco, estes sons meus amigos são os nossos teleco tecos que vibrantes pulsam igual nossos corações, valeu o comentário!!