sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Aos que não gostam do carnaval - por André Bertini


Quem é você? Diga logo que eu quero saber do teu ódio. Sinhá não quer batuque na cozinha nem em lugar nenhum e faz de tudo para silenciar a batucada dos nossos tantãs. Por que madame gosta que ninguém sambe e quer ver nossa viola bem no fundo do baú?
No início do ano essa discussão ganha um componente aditivo: São três, quatro dias, às vezes, até uma semana de folia para desespero das carolas e conservadores de plantão. Até a crise usam para justificar cancelamentos de eventos oficiais previamente estabelecidos nos orçamentos municipais. “A saúde um caos e a prefeitura gastando dinheiro com carnaval...” bradam o refrão já batido. Minha curiosidade não se segura e tenta adivinhar se os problemas na área de saúde e educação vão ser resolvidos retirando o carnaval do povo.
É verdade que muito antes do Brasil o carnaval já existia. Mas, como o futebol, macunaimamente, nós esquartejamos, comemos o carnaval e parimos o nosso próprio, de pés descalços, inebriados de cachaça.  A partir disso, o país e a festa popular tornaram-se indissociáveis, mais: transformaram-se em um só. É a santíssima trindade tupiniquim: Povo, carnaval e futebol, unificados a partir do início do século XX.
Democrático, como sempre foi, o carnaval torna quase real o devaneio dos foliões. São freiras, padres, até papas, são piratas, são reis, são palhaços e marcianos, dançando à sombra de alegorias. Senhores do próprio destino até que uma quarta-feira de cinzas transforme em pó tudo o que foi sonhado. Doce ilusão. Mas, no entanto, é preciso cantar. É preciso cantar para alegrar a cidade! É das cinzas que levantamos, sacodimos a poeira, damos a volta por cima e, com o respaldo de nosso peculiar calendário, iniciamos o novo ano de fato. Precisamos dessa orgia para encararmos entorpecidos o peso dos meses que se avizinham. O salário que não compra o básico, afinal, de que serve um saco cheio de dinheiro para comprar um quilo de feijão? O abismo separando uns com tanto e outros tantos com algum da maioria, sem nenhum. O soluçar de dor que ninguém ouviu. As Ritas que levam nossos sorrisos. Essa tristeza que não tem fim furando nosso peito, que nem tem mais onde furar. As tábuas que vão caindo, as Iracemas pinchadas no chão, nos paralelepípedos das velhas cidades, os apitos que emudecem, fazendo com que os nomes caiam no esquecimento. É preciso, sim, cantar, para lembra-los! É preciso cantar, pois uma melodia acende no coração do povo a esperança de um mundo novo.
Se as cinzas servem para lembrar que a loucura do carnaval chegou ao fim, elas também alertam e nos fazem questionar se a loucura real não está na sociedade construída por nós ao longo dos anos, na qual se passa mais tempo dentro de um escritório do que na própria casa, na qual se justifica a miséria em função do capital, uma sociedade racista, machista e homofóbica. O menos louco no salão da vida é folião. Deixem o folião em paz, na folia, e voltem para os seus jornais e suas novelas.


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A música pulsa como um Eco, estes sons meus amigos são os nossos teleco tecos que vibrantes pulsam igual nossos corações, valeu o comentário!!